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Fortalecimento Institucional

Século Xi

Retomo o tema das relações comerciais Brasil-China. As decisões estratégicas tomadas pelo governo central chinês, quanto ao modelo de desenvolvimento a seguir, exercem efeitos sobre o resto do mundo

Autor: Rui Wolfart

16 de Novembro de 2017

Sem ser sinólogo, mas instigado por artigo de David Kupfer em Valor Econômico e, associando-o a seis artigos publicados no livro “Reflexões de Um Alemão Cuiabano”, editado e publicado com o patrocínio da Aprosoja, creio ser relevante voltar a um tema especial: Brasil-China.

Retomo o tema das relações comerciais Brasil-China. As decisões estratégicas tomadas pelo governo central chinês, quanto ao modelo de desenvolvimento a seguir, exercem efeitos sobre o resto do mundo. Dada a sua importância face o comércio global, ao decidir pela transferência de mais de 250 milhões de habitantes do campo para as cidades, até 2025, a China não só terá um fator de crescimento interno sustentado nos próximos 12 anos, como atenderá parte de sua demanda alimentar comprando de países como o Brasil.

A meta chinesa é integrar 70% da população ou 900 milhões à vida das cidades, significando US$ 600 bilhões de investimento anuais para cumpri-la. Na década de 80, tinha 80% da população no campo. Essa nova orientação busca determinar o crescimento pela demanda interna de produtos em vez das exportações. Logo, o pressuposto básico da modernização chinesa é a urbanização.

Tais decisões políticas reforçam o entendimento de que a comercialização de produtos agrícolas não será mais “negócio” apenas do mercado. Fará parte de uma estratégia política, pois crises sociais quando ocorrem por falta de abastecimento regular de comida, jamais são debeladas pelo mercado.

As implicações econômicas e geopolíticas de tais decisões não têm precedentes na história da Humanidade. A essa gigantesca concentração de 900 milhões de habitantes em centros urbanos é que os estudos governamentais e/ou privados brasileiros deveriam objetivamente dedicar atenção. É chegado o tempo de o Brasil buscar um acordo mais amplo entre os dois países, numa associação sob a ótica de longo prazo, pela produção/consumo em que ambos os lados sejam ganhadores.

A conjunção do mercado com objetivos de Estados deverá permitir ao produtor uma garantia de renda, dentro dos princípios do wei-qi. Com a nova correlação populacional na China, os preços reais dos produtos agrícolas que foram declinantes nos últimos 40 anos, não poderão mais persistir, pois a estabilidade quantitativa da produção passa a ser uma necessidade absoluta. Não será mais tolerável a transferência de renda do produtor e só dele para as populações urbanas, via alimentos baratos, num processo de produção com altos custos e uma cadeia global de suprimentos para tal fim.

Os fartos subsídios concedidos à agricultura pela União Europeia e Estados Unido num passado recente ajudavam a mascarar a realidade do comércio global de alimentos. Nesse contexto, é necessário reavaliar os riscos inerentes à comercialização praticada em bolsas, pois a crescente utilização de commodities como elementos de especulação é prejudicial a quem produz. Regras estáveis seriam muito bem-vindas nesse rearranjo global de interesses.

Kupfer lembra as conclusões orientadoras do recém-concluído 19º Congresso do Partido Comunista chinês. Até 2050, pretende alcançar a liderança mundial em inovação dentro de seu projeto geopolítico hegemônico, algo extraordinário em relação à sua história precedente. Os investimentos em P&D na ordem de 2,11% do PIB em 2016 geram efeitos em áreas como nanotecnologia e inteligência artificial, quanto à publicação de trabalhos científicos em revistas renomadas globalmente.

Se em 2017 é o maior poluidor do planeta, os investimentos em energia fotovoltaica e em carros elétricos dão mostras da seriedade pretendida em sustentabilidade ambiental. O tsunami de suas políticas e das recentes intenções e ações de empresas chinesas no Mato Grosso demonstram a necessidade da Aprosoja estruturar um núcleo de estudos estratégicos, voltado ao estabelecimento de relações seguindo os princípios do wei qi.

 

Rui Wolfart

Rui Wolfart é produtor rural, engenheiro agrônomo e especializado em administração.

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